A meio caminho entre as palavras e as coisas

 

Nas diversas significações da palavra hiato, a ideia de uma interrupção, fenda, intervalo ou falha se colocam de forma central. Na exposição de Luiz Eduardo Lemos esses sentidos são ainda mais ampliados para tratar de formas residuais do sentido e da significação, especialmente em relação à palavra.

 

As palavras nomeiam o mundo, constroem a linguagem e acionam os discursos. A palavra é também o ponto de partida de Luiz Eduardo Lemos em suas séries anteriores. Num gesto forte e potente, pouco a pouco, Lemos fragmenta e destitui as palavras de sua totalidade reduzindo-as a letras que povoam o espaço cromático das telas em sofisticadas camadas e sobreposições. A cor ao cobrir a tela, paradoxalmente também revela e deixa vestígios sutis.

 

A letra torna-se signo dos resíduos das palavras, mas aponta para os vazios da linguagem e dos discursos, tanto aqueles do jogo linguístico das vogais próximas, quanto retomando o sentido de fenda ou incisão. Diante das obras, parece que sempre estamos entre: seja entre os sentidos desgarrados da fragmentação da palavra e a falência da linguagem em tentar dar conta de tudo ou entre os sentidos que deslizam na intensidade cromática e formal que compõem o conjunto de obras expostas.

 

No modo de construir as obras surgem outros planos nos recortes que abrem as telas, lembrando Lucio Fontana, ou nas dobras nas telas formando volumes, assim como nas grandes áreas monocromáticas que muitas vezes encobrem camadas anteriores. É nesse trânsito, nesse meio caminho entre vestígios, rasuras e enormes planos cromáticos sobrepostos que uma composição rigorosamente inquieta se forma e nos convoca a deslocar nosso olhar em intervalos entre o todo e os detalhes.

Eduardo de Jesus para a exposição Hiato (2017)

Halfway between words and things

 

 In the various meanings of the word hiatus, the idea of ​​an interruption, gap or failure is placed centrally. In the exhibition by Luiz Lemos, these meanings are further expanded to address residual forms of meaning especially in relation to the writen word.

 

Words name the world, build language and trigger discourses. The word is also the starting point of Luiz Eduardo Lemos in his previous series. In a strong and powerful gesture, little by little, Lemos fragments and destroys the words from their entirety, reducing them to letters that populate the chromatic space of the screens in sophisticated layers and overlays. The color when covering the canvas, paradoxically also reveals and leaves subtle traces.

 

The letter becomes a sign of the residues of words, but points to the voids of language and discourses, both those of the linguistic game of the nearby vowels, and resuming the sense of a gap or incision. In face of the works, it seems that we are always among: either between the stray senses of the fragmentation of the word and the failure of language in trying to account for everything or between the senses that slide in the chromatic and formal intensity that make up the set of works on display.

 

In the way of building the works, other plans appear in the cutouts that open the canvases, reminiscent of Lucio Fontana, or in the folds in the canvases forming volumes, as well as in the large monochromatic areas that often cover previous layers. It is in this transit, in this halfway between vestiges, erasures and huge overlapping chromatic planes that a strictly restless composition is formed and calls us to shift our gaze in intervals between the whole and the details.

 

Eduardo de Jesus for the exhibition Hiato (2017)