Entre a casa e o acaso

 

  “Todo o ser da casa se desdobraria, fiel ao nosso ser. Empurraríamos com o mesmo gesto a porta que range, iríamos sem luz ao sótão distante. O menor dos trincos ficou em nossas mãos.”¹

 

(Gaston Bachelard, a poética do espaço)

O pitoresco da casa morada e o caos da casa urbana, ambos os lugares nos projetam como moradores do espaço dentro e do espaço fora. Na experiência de habitar não é possível falar apenas da intimidade de um quarto, ou da cozinha, ou apenas da rotina de uma intimidade guardada, mas há uma projeção de desvelamento no sujeito que direciona o olhar para o que está do lado de fora. A casa urbana é também o lugar de afeto.

Entre um espaço e outro. Entre a janela da sala de jantar e a porta do comércio local. Entre o jardim e a avenida.  Entre dois artistas, duas linhas, dois pontos de memórias e traços. Entre o tempo de Chronus e o tempo de Kairós, os meios, as palavras, os intervalos, as vírgulas e as reticências. Estamos entre o caos e o cosmos.

 

De um lado, fica evidenciado o erro, o gesto sem correção e as camadas de tinta como forma de histórico do que aconteceu durante o processo de criação. Tal qual um prédio tosco ao lado de uma casa nova; ambos ganham destaque. As possibilidades geradas entre o confronto de letras empregadas por formas de comunicação e os elementos pictóricos que regem o desenvolvimento das pinturas do artista criam, assim como na cidade, o erro, o recorte do discurso e o confronto de ideias, que estão sempre presentes.

 

De outro Lado, a paisagem urbana pensada através da fotografia de objetos e utensílios de comércios da cidade, presentes em vitrines e prateleiras de lojas, ganham significado impar para entender um fragmento do caos urbano. Imagens que são atravessadas por um incômodo gerado por acúmulos e desordens. Essa paisagem fragmentada e caótica desperta no artista o desejo de reorganizar o espaço, costurando uma poética de cores e leveza para compor uma novo cenário dentro da pintura.

 

São esses intervalos atemporais que conectam as obras de Luiz Eduardo Lemos e Gilson Rodrigues, gerando um encontro de linguagens dentro da mesma casa que possibilita apresentar ao público a exposição entre a casa e o acaso.

A casa  é o micro universo do artista e ao mesmo tempo o lugar comum para o encontro entre obra e público.

 

Marci Silva

Between the house and chance

"Every being of the house would unfold, faithful to our being. The smallest of the latch sits in our hands." ¹

 

(Gaston Bachelard, the poetics of space)

 

The picturesque house abode and the chaos of the urban house, both places project us as residents of the space inside and outside space. In the experience of inhabiting it is not possible to speak only of the intimacy of a room, or the kitchen, or just the routine of a guarded intimacy, but there is a projection of unveiling in the subject that directs the look to what is on the outside. Urban house is also the place of affection.

 

Between one space and another. Between the dining room window and the local commerce door. Between the garden and the avenue.  Between two artists, two lines, two points of memories and traits. Between Chronus time and Kairós time, means, words, intervals, commas and reticence. We're between chaos and the cosmos.

 

On the one hand, the error, the gesture without correction and the layers of ink as a form of history of what happened during the creation process are evidenced. Like a stone building next to a new house; both gain prominence. The possibilities generated between the confrontation of letters employed by forms of communication and the pictorial elements that govern the development of the artist's paintings create, as well as in the city, the error, the clipping of discourse and the confrontation of ideas, which are always present.

 

On the other hand, the urban landscape thought through the photograph of objects and trade utensils of the city, present in showcases and store shelves, gain odd meaning to understand a fragment of urban chaos. Images that are traversed by a nuisance generated by accumulations and disorders. This fragmented and chaotic landscape awakens in the artist the desire to reorganize space, sewing a poetics of colors and lightness to compose a new scenery within the painting.

 

It is these timeless intervals that connect the works of Luiz Eduardo Lemos and Gilson Rodrigues, generating a meeting of languages inside the same house that makes it possible to present to the public the exhibition between the house and chance.

The house is the micro universe of the artist and at the same time the common place for the encounter between work and public.

 

Marci Silva