Sobre os dias de calor

Era tempo de calmaria. Espreguiçada em rede acinzentada, observava o dia ir dormir com gozo nos olhos. O gato caminhava lento em minha direção quando me lembrei daquele quadro que ficava na parede maior do apartamento. Tempestade tinha os pelos longos e negros, dos gatos mais simpáticos da casa, me rodeava todas as manhãs à espera do afago de bom dia. Era o guardião da cozinha e saía pouco de seu território. Naquela tarde veio até mim só pra esperar o findar de um dia de calor. Enquanto acarinhava a tempestade, me lembrava dos trovões e aguaceiros que havíamos vivido no último ano. O quadro com nome de gato foi feito em meio à maior das tormentas que atravessei até hoje. Brincava contigo sobre o sol que via ainda apagado por detrás das nuvens, dizendo sobre a calmaria que lentamente se aproximava. Você ria, mas para mim era tudo tão simbólico quanto essa carta que te escrevo hoje. Já nestes em dias de calor, olho com carinho para a tempestade que atravessamos juntos e que nos trouxe até esse momento.

Hoje vejo em você a amplitude de horizontes recortados, recriados. Aquele “re”, tão importante de ser encontrado em tempos chuvosos. As pequenas paisagens de infinitos mares, chuvas, luas, sóis e eclipses me falam mais sobre a tua sede de
paisagens do que sobre as formalidades da pintura que tanto te encantam. A quebra de um lugar possível para a invenção de não-lugares. As placas, outdoors, paredes e símbolos que comunicam e ordenam a cidade são colocadas em meio ao caos, como se não houvesse mesmo indicação de por onde seguir, em quem acreditar. Apenas entregar-se ao pandemônio da tempestade, ao estranhamento dos centros urbanos que sempre te atordoaram. Como no gesto de implodir o confortável quadrado da pintura e lançá-la para o espaço, para a cidade, para o corpo. Do mesmo modo, teu caminho entre as palavras quebradas e a necessidade de transformar fala em imagem, traduzem em meus olhos a voz engasgada, o não dito. Na tua pintura, teus silêncios gritam. Explodem o verbo. É mesmo um jogo o de dizer pelas tangentes, pelo desvio do olhar. Silêncios que transbordam nas tantas camadas escondidas de cores, revelando apenas aos mais curiosos aquilo que de fato tem dentro. Para além do brilho sedutor das luzes, existe o calor e a dança pulsante dos gases e fluidos de cor. Sempre gostei mais de teu trabalho em segundos ou terceiros olhares, encontrando a miudeza que você fez questão de esconder.
As tais ondas de calor que você buscou nos últimos tempos se apresentam diante dos nossos olhos nessa exposição. Você dirá às pessoas sobre as formas, cores, técnicas, conceitos e tantas riquezas que desenvolveu em teu discurso. Mas enquanto curadora ou curandeira como você sempre me chamou, peço a licença para dizer de perto, de dentro. Falo de uma perspectiva bastante próxima, por não saber dizer de ti de outra forma.
Deixo em suas mãos a escolha de levar adiante essas palavras ou guardar para ti o
que te entrego nesta carta. Despeço-me com o desejo de que as águas  torrenciais te levem adiante, às paisagens que desejar, à voz solta, ao gozo nos olhos, aos dias de calor.
Com amor,
Gabriela Carvalho
São Paulo, 08 de agosto de 2019

About the hot days

It was a time of calm. Lounging in a gray hammock, I watched the day go to sleep with joy in the eyes. The cat was walking slowly towards me when I remembered that picture that was on the biggest wall of the apartment. Storm had the long black hair, the nicest cats in the house, surrounded me every

mornings waiting for the good morning cuddle. He was the keeper of the kitchen and he left little of his territory. That afternoon he came to me just to wait for the end of a hot day.

As I cherished the storm, I remembered the thunder and downpours that we had lived in the last year. The cat-name painting was made in the middle of the largest of the storms that I went through until today. I played with you about the sun I could still see extinguished behind the clouds, saying about the calm that slowly approached. You laughed, but to me it was all as symbolic as this letter that I write today. In these hot days, I look with affection at the storm that we went through together and that brought us up to that moment.

Today I see in you the breadth of cut and recreated horizons. That “re”, so important to be found in rainy times. The small landscapes of infinite seas, rains, moons, suns and eclipses tell me more about your thirst for landscapes than about the formalities of painting that so enchant you. The brake of a possible place for the invention of non-places. Signs, billboards, walls and symbols that communicate and order the city are placed in the midst of chaos, as if there was no indication of  where to go, who to believe. Only surrender to the pandemonium of the storm, to the strangeness of urban centers that always stunned you. As in the gesture of imploding the comfortable square of painting and launching it into space, into the city, into the body.

Likewise, your path between broken words and the need to transform speech into image, translate in my eyes the choked voice, the unspoken. In your painting, your silences scream. The verb explodes. It's really a game to say

by tangents, by the deviation of the look Silences that overflow in so many layers hidden in color, revealing only to the most curious what it actually has

inside. In addition to the seductive glow of the lights, there is the warmth and pulsating dance of colored gases and fluids. I always liked your work more in seconds or thirds looks, finding the offal that you made a point of hiding.

The heat waves you have been looking for lately appear before the our eyes on this exhibition. You will tell people about the shapes, colors, techniques, concepts and so many riches that you developed in your speech. But as a healer or healer as you always called me, please excuse me to say up close

inside. I speak from a very close perspective, for not being able to say about you from another form.

I leave in your hands the choice to carry on these words or to keep the

that I give you in this letter. I say goodbye with the wish that the torrential waters will take it forward, to the landscapes you want, to the loose voice, to the joy in the eyes, to the days of heat.

 

With love,

Gabriela Carvalho

Sao Paulo, August 8, 2019